Projeto ''O Silêncio Também Mata'' conscientiza estudantes no combate à violência de gênero, em Rio Maria
Eletiva alia comunicação digital, protagonismo juvenil e enfrentamento à violência contra a mulher em escola estadual do Pará
O combate às violências se tornou um dos temas centrais na Escola Estadual de Ensino Médio Senador Catete Pinheiro, no município de Rio Maria, no sudeste do Pará, com a eletiva “O Silêncio Também Mata”, desenvolvida ao longo do ano de 2025, que usa desde o ambiente escolar até os meios digitais para auxiliar estudantes a reconhecer e combater a violência de gênero.
A iniciativa trouxe estudos sobre gênero, diversidade e interseccionalidades para dentro de sala de aula, por meio de palestras, rodas de conversa, estudos de caso e também pelo desenvolvimento de atividades no campo das mídias sociais, em que os estudantes tiveram acesso às aulas práticas para o manuseio de equipamentos e, assim, puderam participar ativamente da produção do POD-CAT (Podcast da Escola Catete Pinheiro) e de conteúdos sobre o tema para as redes sociais.

Para além disso, levou os estudantes a trabalhos de campo, no acompanhamento de duas sessões de julgamento de casos de feminicídio no município, possibilitando compreensão concreta sobre o funcionamento da justiça nesses casos.
A instituição passou, recentemente, por um processo de reconstrução, promovido pelo Governo do Pará, que ampliou o desenvolvimento de práticas inovadoras, como a aplicação de eletivas como esta voltadas para a formação humana integral, com a implantação de salas de aula climatizadas, biblioteca, laboratório de informática, laboratório multidisciplinar, quadra coberta e espaços de convivência.
Além disso, o Tribunal de Justiça do Estado do Pará (TJPA) também contribuiu para o desenvolvimento da eletiva, investindo mais de R$5 mil reais para a aquisição de equipamentos, permitindo a montagem de um estúdio audiovisual dentro da escola e viabilizando a continuidade do projeto.

A Profª Maraica Gomes, orientadora, destacou o pioneirismo do projeto na região. “Agora, no mês de junho, vou completar 30 anos de exercício em sala de aula nessa mesma escola, e esse foi o primeiro ano que a gente pôde debater no espaço escolar essa temática da violência contra a mulher. Embora sempre tenha havido episódios esporádicos na escola, nunca foi algo sistematizado, debatido com rigor acadêmico, aprofundamento em literaturas, e nunca houve essa extrapolação dos muros da escola, nunca fomos à comunidade. Então, essa relação que a eletiva promoveu da escola com a comunidade, ouvir o conselho tutelar, ouvir a ONG Marias do Amor, buscar junto ao Tribunal de Justiça do Estado do Pará a parceria para a aquisição dos equipamentos, ouvir toda a rede de apoio de mulheres em situação de risco ou já vitimadas pela violência, foi algo fundamental. A gente nunca tinha conseguido incentivar esse tipo de laço com a comunidade, então esse é um ponto muito relevante ao meu ver”, afirmou.
“Fazer parte dessa eletiva foi fundamental pra mim como aluno, como ser humano e principalmente como homem, por abordar um tema tão delicado. A eletiva ‘O Silêncio Também Mata’ me ajudou a reconhecer uma vítima quando ela tá sofrendo uma pressão psicológica, ou quando ela tá sofrendo alguma violência em casa, principalmente a violência psicológica, então essa eletiva me ajudou a enxergar o mundo de outra forma. E vale ressaltar que essa eletiva foi fundamental principalmente na parte de como saber ajudar essas vítimas. Eu diria que eu era uma pessoa bem leiga em questão de como saber ajudar, como poder direcionar, e agora eu posso dizer que consigo ajudar e direcionar, porque a gente conheceu vários tipos de órgãos que ajudam essas mulheres na luta para sair desse relacionamento abusivo, dessa relação tóxica, então foi muito essencial principalmente na parte de saber como ajudar essas mulheres.”, relatou Carlos Eduardo Messias, ex-aluno recém formado da escola que teve participação ativa na eletiva.

O POD-CAT, uma das principais criações da eletiva, promoveu, entre 6 episódios publicados no Youtube, entrevistas com mulheres da região, representantes de órgãos como o Conselho Municipal dos Direitos da Mulher, o Conselho Tutelar, a Secretaria de Assistência e Proteção Social, a ONG Marias do Amor e até mesmo a prefeita municipal, Sra. Márcia Ferreira, que puderam debater sobre experiências pessoais e também conscientizar sobre as políticas públicas voltadas ao combate à violência de gênero e ao feminicídio.
A professora Maraica ainda destacou que a eletiva auxiliou estudantes a se perceberem vítimas da violência de gênero. “Outro aspecto muito relevante foi a aproximação dos alunos envolvidos diretamente na produção do podcast com a professora. Houve um estreitamento de relações e uma reação de confiança muito grande quando esses estudantes se sentiram à vontade para falar de sua vida pessoal, perceberam-se vítimas e também buscaram junto à professora orientações específicas para encaminhar essas denúncias.”, relatou.
Outra rede social utilizada foi o Instagram, que para além de servir como um meio de conscientização, também serviu como um canal de denúncias, em que mulheres, incluindo vítimas de violência, puderam entrar em contato via direct para tirar todo o tipo de dúvida, demonstrando o impacto positivo da iniciativa na sociedade de Rio Maria.
“A comunidade participou diretamente no instagram, fazendo questionamentos, dando relatos, procurando orientações, e nossos alunos puderam de fato ouvir o anseio da comunidade, orientar - logicamente, junto com a minha presença - o que fazer, como fazer, a quais órgãos denunciar, como romper o ciclo de violência… Então, eles tiveram uma experiência real, verdadeira, e que realmente não estava prevista no nosso projeto, mas que a gente alcançou muito além das nossas metas iniciais.”, afirmou a professora Maraica.

A eletiva abriu portas aos estudantes do município para o pensamento e discussão crítica sobre a violência contra a mulher, também os ensinou a reconhecer todos os tipos de violência, e, principalmente, como combatê-las, reforçando o papel da escola como meio de transformação social na vida não só dos estudantes, mas de toda a população.
Joyce Moura, outra estudante que participou ativamente do projeto, destacou a importância dele para a sua formação. “Posso dizer com todas as palavras que sou grata por essa eletiva, porque eu tive conhecimentos que eu pensava que nunca ia ter, então a eletiva foi muito importante para a minha vida, mudou a minha vida, e eu espero que ela possa ainda mudar a vida de mais pessoas através do nosso podcast que tem os vídeos já no youtube. Cada episódio foi gravado com muito carinho, muito cuidado, porque é um assunto muito forte, muito delicado. Antes dos temas serem escolhidos, a professora Maraica, a produção e o pessoal do roteiro sentavam e iam debater o tema, escreviam o roteiro com todo o cuidado e sempre puxando o lado das mulheres, sempre pensando nas mulheres, com aquele cuidado e aquele amor. Então é isso que a eletiva foi pra mim: um momento de acolhimento, e nela eu me senti acolhida e acolhendo aqueles que chegavam pra conversar com a gente e perguntar sobre os assuntos, então ela foi muito importante na minha vida.”
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